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Por mais de 20 anos, eu estive do outro lado desta mesa, vivendo a realidade de um executivo. Nos últimos 25, tenho tido o privilégio de ouvir esses mesmos executivos, mas em um espaço de reflexão: meu consultório. E o que percebo é um profundo descompasso.

O mundo dos negócios acelerou de uma forma que mal conseguimos acompanhar. A complexidade explodiu na comunicação, na globalização, nas relações. Em cada ponto que olhamos, vemos essa expansão. Mas o executivo, em sua essência, não me parece muito diferente do que era há 30 anos. O que vejo são seres humanos mais informados, mais cientes das mudanças, mais aptos para a guerra comercial, mas também muito mais em sofrimento.

E a pergunta que tem guiado meu trabalho é: De onde vem esse aumento de sofrimento?

Estou convencido de que a resposta está na nossa maior ferramenta, que se tornou nossa maior armadilha: a razão. Chegamos a um ponto em que o racional, sozinho, não dá mais conta da complexidade. O que aprendemos já não é mais a única razão do sucesso. A complexidade dos negócios está exigindo muito mais do que saber; ela exige compreender. E compreender exige sabedoria. E a sabedoria, por sua vez, exige complexidade subjetiva.

Esse sofrimento tem um rosto. É o rosto do executivo no auge da sociedade do desempenho. Muitos de nós talvez nos reconheçamos aqui. Ele está em seu habitat natural: um escritório moderno, cercado por aquilo que aprendeu a dominar – dados, gráficos, números. Ele é um mestre do concreto, do mensurável. Por décadas, essa foi a fórmula do sucesso. Mas o que esta imagem nos mostra é que a fortaleza se tornou uma prisão. A mesma racionalidade que nos trouxe até aqui agora nos sufoca, e a velocidade dos dados cria uma pressão que nos esgota. Este é o retrato do sofrimento moderno: estar no controle de tudo, mas prisioneiro dentro da própria mente.

Mas o que acontece quando a pressão se torna insuportável? O sistema quebra.  Este é o ponto de ruptura. A parede de dados, antes impenetrável, começa a rachar. E essa rachadura não é um sinal de fracasso, mas sim de oportunidade. É uma abertura. O executivo fecha os olhos, não por cansaço, mas em um ato de introspecção. Ele para de olhar para fora e começa a olhar para dentro.

E aqui está o paradoxo: este movimento, que parece tão difícil em um mundo que nos treina a olhar sempre para fora, é na verdade o gesto mais natural que existe. É um retorno para casa. O que descobrimos ao fazer isso é que, dentro de nós, temos muito mais respostas do que imaginamos. Essa luz que invade a sala não é de fora; ela vem de dentro. É o primeiro chamado da subjetividade, da intuição. É a percepção de que a resposta não está em mais informação, mas em uma qualidade diferente de compreensão

Se o mundo lá fora é complexo, a única forma de navegá-lo com equilíbrio é desenvolver a nossa própria complexidade subjetiva. Podemos imaginar aqui uma silhueta do executivo mais humana, ela não está vazia. Ela está preenchida com um universo interior vibrante: uma árvore da vida com raízes profundas, que nos conectam à nossa história, e galhos que se expandem como constelações, representando nosso potencial e nossa capacidade de ver padrões onde os outros só veem caos. Esta é a cartografia da nossa alma, um território que a sociedade do desempenho nos ensinou a ignorar.

E sabem por que estou usando tantas metáforas? Porque elas são formas subjetivas de mostrar uma realidade, um conteúdo. Elas, por si só, já nos mostram o valor da subjetividade.

É exatamente neste território que reside a verdadeira sabedoria. Os grandes mestres a usaram com abundância.

E aonde essa jornada nos leva? Ela nos leva ao líder sábio. Observem. Ele não abandonou a tecnologia ou os dados. A diferença fundamental está na sua postura. Ele não está mais tenso ou ansioso. Ele está calmo, centrado, confiante. Ele não rejeitou o racional; ele o integrou a algo maior. O ambiente ao seu redor agora combina o moderno com o natural, simbolizando essa harmonia entre o mundo exterior e o seu mundo interior. Este executivo não apenas sabe; ele compreende. Ele usa as ferramentas da razão com a sabedoria que cultivou em sua jornada interior, liderando com clareza, propósito e, acima de tudo, humanidade.

Portanto, a jornada que proponho não é sobre aprender uma nova técnica de gestão. É sobre resgatar uma sabedoria antiga que se resume em “conhece-te a ti mesmo”. É entender que saber sobre o mercado não é o mesmo que se conhecer. E o conhecimento que o mundo exige de nós agora é o da sabedoria, não apenas o da informação.

A próxima fronteira do desenvolvimento profissional e pessoal não está lá fora, em mais um curso ou aplicativo. Ela está aí dentro. O convite está feito.

 

 Foto de Vitaly Gariev na Unsplash

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