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O entendimento da mecânica do inconsciente vem sendo usado, há muito tempo, como ferramenta estratégica para manipular a opinião pública, as decisões de consumo e as tendências em múltiplas frentes, como a política e a cultura. O sistema capitalista produtivo, através do marketing, em especial, tem se utilizado desse conhecimento com maestria, para potencializar resultados.

Tal movimento nasceu há cerca de cem anos, quando Sigmund Freud apresentou uma nova teoria sobre a natureza humana. O pai da Psicanálise descobre, então, que forças primitivas sexuais e agressivas, remanescentes do nosso passado animal, estão ocultas na parte mais profunda da mente de todos os seres humanos, no inconsciente. Forças essas que, se não controladas, podem levar indivíduos e sociedades ao caos e à destruição. Sentimentos que reprimimos porque são perigosos demais.

Desde então, as teorias de Freud têm sido usadas por poderosos para controlar as multidões, em uma era de democracia de massa.

O entendimento sobre o comportamento humano e sua manifestação em grupo interessou especialmente ao sobrinho de Freud, Edward Bernays, nos idos dos anos 1920, o que o fez se aprofundar nos escritos de seu tio, que enviou para ele a obra Introdução geral à Psicanálise.

Bernays mostrou às grandes corporações americanas, pela primeira vez, como fazer as pessoas quererem coisas que elas não precisam, ao associar seu consumo aos desejos inconscientes. O mesmo se deu em relação à uma nova idealização política de como controlar as massas.

Chegou-se ao entendimento de que há uma variedade de elementos envolvidos nas decisões humanas. Não somente entre indivíduos, mas principalmente entre grupos. E percebe-se que, ao satisfazer os desejos egoístas das pessoas é possível torná-las felizes, portanto mais dóceis. 

Nasce então a era do ter, do “eu” consumista, que se mantém até os dias de hoje. A ideia de que não se precisa comprar apenas por necessidade, mas para que você se sinta melhor.

Muitos experimentos foram criados por Bernays para testar tais teorias. Um deles foi persuadir as mulheres a fumarem, atendendo um pedido da indústria do tabaco. O estrategista associa então o cigarro à independência e ao poder feminino, ideia disseminada pelo cinema norte-americano, nos anos 1920. Um símbolo que persiste até a atualidade, mesmo que inconscientemente.

Bernays percebe que é possível levar as pessoas a se comportarem de forma irracional se são associados produtos ou serviços aos seus desejos e sentimentos mais emocionais. Coisas irrelevantes podem se tornar fortes símbolos com múltiplos significados. E tudo isso tem muito a ver com a forma que você quer ser visto pelos outros.

Muitos se aproveitaram das percepções da Psicanálise transformando-as em arma propulsora para conseguir o que queriam. Técnicas de persuasão das massas, com as quais agora convivemos. E o ego teve uma participação especial nesse cenário que transformou este último século.


A cura do ego

Segundo a teoria freudiana, ego faz parte do aparelho psíquico, se constitui por meio das experiências do indivíduo e exerce controle sobre o seu comportamento, sendo grande parte de forma inconsciente.

O ego atua como um centro de consciência. É aquele elemento que me reflete no mundo, o espelho que tenho, no meio em que estou inserido. Tudo aquilo que confirma as minhas “verdades”, que são construídas para que se possa manter a própria sobrevivência.

Mas como se desvencilhar dessas perigosas forças submersas e ocultas que nos movem em direção ao consumismo e a atos não tão grandiosos?

O primeiro passo é reconhecer que tais forças existem. E para ampliar a reflexão, recomendamos o documentário “O século do ego”, disponível no YouTube, sobre como a sociedade norte-americana — grande influenciadora cultural do mundo ocidental no último século — está forjada a partir do ego.

O segundo passo, o antídoto para tal condição humana, seria a autenticidade, permitir-se existir, apesar da ação dessa onda que mobiliza a sociedade e a leva de lá pra cá, conforme o interesse de determinados grupos. Questionar as “verdades” que nos são apresentadas, se informar, entender cenários, ampliar o conhecimento sobre as coisas e sobre si mesmo.

Chegar à autenticidade não é fácil, mas é possível, pois muitos conseguiram. Haja vista personagens da história e pessoas comuns que admiramos e se destacaram por serem elas mesmas.

Fazer-se presente é a chave. Só no presente podemos acessar a autenticidade.

Conectar-se consigo mesmo, com as coisas que trazem prazer, fortalecer relações pessoais, promover o autoconhecimento, ampliar a percepção do eu leva à “cura” da toxicidade provocada pelo consumismo excessivo e pela vida artificial.

Autenticidade é conseguir ser num mundo que direciona as pessoas desde cedo para o ter. Construímos ilusões sobre nós mesmos, adotamos ideias e comportamentos sem refletir sobre a razão dentro de cada um deles, para podermos nos encaixar na realidade que se apresenta.

Somos formados psiquicamente sob o olhar do outro, por isso tendemos a nos reconhecer no olhar externo, desde crianças. Na vida adulta, muitas vezes funcionamos com a mesma mecânica infantil, vendo presidentes ou chefes como pais e mães. Esperamos “recompensas” do mundo externo, esquecendo que o ponto de equilíbrio deveria ser dentro de nós mesmos.

Voltar a consciência para a realidade interna se mostra como um precioso caminho para o futuro da humanidade. É preciso conhecer o nosso próprio microuniverso, o que há dentro de nós, para podermos manter a harmonia com o mundo fora.

 

Referência:

CURTIS, Adam (diretor). Documentário “O século do ego” (The Century of the Self). BBC Two. Reino Unido, 2002. Disponível no YouTube.

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