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Dizem que as pessoas não deixam as empresas, mas sim seus chefes. Essa frase, repetida como um mantra nos corredores corporativos, é a ponta de um iceberg de gelo emocional. Mas talvez a metáfora mais fiel não seja a do mar, e sim a de um jardim.

Cada empresa é um ecossistema. Cada equipe, um canteiro. E cada líder, um jardineiro.

As pessoas não abandonam o jardim. Elas fogem do jardineiro que traz a geada em pleno verão. Fogem da mão que poda com raiva, do solo que se tornou árido pela falta de empatia, da sombra constante de um carvalho que, de tão grande e centralizador, não deixa nada florescer a seus pés.

As empresas, em sua sabedoria pragmática, medem o custo das flores que são arrancadas — a rotatividade. Calculam o preço da terra, da nova semente, da água para o replantio. Mas falham em medir o custo do silêncio. O custo do jardim que não floresce.

Abaixo da superfície, onde os olhos dos relatórios não alcançam, jaz a verdadeira perda: a seiva que parou de correr. Aquela energia vital, a libido do trabalho, que faz uma folha se voltar para o sol. Quando essa seiva seca, as flores não morrem de imediato. Elas apenas… param. Ficam ali, presentes, mas sem cor, sem perfume, sem vida. É o inverno do presenteísmo, onde o jardim está cheio, mas o crescimento cessou.

E por que isso acontece? Porque tentamos consertar o jardim com as ferramentas erradas.

Enviamos o jardineiro para cursos que lhe ensinam os nomes latinos das flores, mas não o ensinam a sentir a umidade da terra. Damos a ele um novo ancinho, um manual sobre a “importância da delegação”, mas não o ajudamos a entender por que ele insiste em arrancar cada erva daninha com as próprias mãos, até que suas costas doam e seu espírito se esgote.

O segredo não está no manual, mas no espelho.

Um líder centralizador, por exemplo, não muda porque um livro lhe disse para confiar. Ele começa a mudar quando se olha no espelho d’água do seu próprio cansaço e vê o reflexo que, em seu desejo de controlar cada gota de orvalho, criou para si uma seca particular. A mudança não nasce da instrução, mas da introspecção. Ela floresce quando a dor de ser quem se é se torna mais pesada que o medo de se tornar quem se pode ser.

Então, como o RH, o arquiteto deste ecossistema, pode ajudar o jardineiro a encontrar seu espelho?

Não se trata de dar-lhe mais ferramentas, mas de convidá-lo para uma caminhada. O mentorado é essa caminhada a dois, na qual um guia sábio não aponta o caminho, mas ilumina as bifurcações, fazendo perguntas que ecoam na alma: “Por que esta parte do seu jardim te assusta tanto?”.

As avaliações são o eco do vento. Elas permitem que o jardineiro ouça como o som de seus passos é percebido pelas pequenas criaturas do canteiro. É a chance de descobrir que o que ele pensava ser um passo firme, para outros, soava como um trovão ameaçador. O medo de se expor em grupo vai se dissolvendo lentamente e os grupos de líderes começam a acender suas fogueiras à noite, onde outros jardineiros se reúnem. Ali, um confessa que teme as pragas; outro, que não sabe lidar com as rosas de espinhos. E na partilha da vulnerabilidade, cada um percebe que a jardinagem é uma arte solitária, mas a jornada não precisa ser.

E como convencer os donos da terra a investir em espelhos e fogueiras, em vez de apenas em novos sacos de sementes?

É preciso falar a língua da colheita. É preciso mostrar os canteiros áridos no mapa e calcular o valor dos frutos que nunca amadureceram. É preciso propor um projeto piloto: “Deixem-nos cuidar deste pequeno pedaço de terra esquecido. Deixem-nos ensinar o jardineiro a ouvir a terra. E depois, vamos juntos provar os frutos.”

A transformação de um líder é a mais bela alquimia da natureza corporativa. É quando o jardineiro deixa de ser um mero cumpridor de metas e se torna um cultivador de potenciais. Ele entende que seu trabalho não é forçar a flor a se abrir, mas criar as condições perfeitas para que ela desabroche por si mesma, em seu próprio tempo e com sua própria cor.

Entendo o quanto é difícil convencer um líder a aceitar esse caminho, a resistência a ser superada só acontece com a segurança emocional que a organização, esse corpo vivo lhe oferece.

O verdadeiro legado de um líder não é o tamanho da colheita que ele entregou em uma estação, mas a vitalidade do jardim que ele deixou para trás, fértil e pulsante por muitas primaveras.

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