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O humano reproduz em sua organização os modelos aprendidos da natureza. Mesmo que inconscientemente, a configuração da nossa sociedade, as regras, as hierarquias, as funções desempenhadas acessam o já existente, desde sempre. Não inventamos nada, copiamos bem.

Todo biossistema ― como uma floresta, composto de micro-organismos, animais de pequeno, médio e grande porte, aves, seres aquáticos e anfíbios ―, compõe uma sociedade, com os procedimentos próprios a cada espécie. Essa estrutura já existia antes do humano fazer parte da vida na Terra. O homem, espelhado nesse modelo, criou sua forma de vida social.

O bioma Amazônia, por exemplo, representa um rico conjunto de ecossistemas que envolve a bacia hidrográfica do Rio Amazonas e a maior floresta tropical do mundo: a Floresta Amazônica, que abrange uma área de 5 milhões de km2, considerada a maior do planeta em biodiversidade. São cerca de 30 milhões de espécies animais e 14.000 tipos de plantas.

Mas como serão as ligações entre os inúmeros elementos desse bioma? Quais são as regras, as leis? Como são as relações entre as diferentes espécies? Como ocorre o processo criativo, de “criação” desse meio? Como será a comunicação? Qual é a função de cada um dos seres que compõem esse biossistema, desde a menor partícula até a árvore de maior envergadura?

O neurocientista António Damásio explica que “quando examinamos o comportamento de bactérias e insetos sociais, percebemos que a vida primitiva é modesta apenas no nome”.

A TEIA DA VIDA

Nascer, crescer, deixar um legado, morrer. Existe uma grande teia de consciência que não trabalha no individual e acompanha coletivamente o ritmo da vida, naturalmente. Para se manter, a vida precisa de confiança, “fiar-se com”, tecer em conjunto. A vida é tecer com o outro, tecer nas diferentes linhas da vida, estabelecer ligações. Como é a tecelagem da vida? Como tecer o fio da vida? Essa tecelagem envolve confiança; sem a confiança não se produz nada, não se tece a vida.

Mas qual é a linha que liga tudo isso, que produz a rede?

O fluxo de informação constrói a teia da vida. É assim em nosso corpo e em nossa mente. Como poderia a cultura se desenvolver fora desse fluxo? Como os grupos se uniram para construir um “jeito” de ser sem confiar na ordem estabelecida pela cultura? Fiando juntos é que se constrói o corpo vivo social, assim como a vida biológica construiu a evolução. O que dá certo caminha, do contrário desaparece. Exatamente iguais em processos os dois sistemas, cultural e biológico, obedecem a ordem da confiança na informação, que tem que ser precisa e verdadeira para o seu fim. Se não funcionar como estabelecido não tem o produto final.

Assim é a sociedade em sua premissa básica. Existe uma informação, ou várias delas, que nos levam a crer que se não houver “liga” nada acontece. E o que faz a liga na sociedade é a arte de confiar, seja a informação verbal ou não verbal. Com a subjetividade, veio junto o livre-arbítrio que se utiliza muitas vezes da mentira, do engodo para alcançar regalias. Não pode funcionar para criar culturas perenes.

A CULTURA E O MODELO HUMANO DE SER

O impressionante é que todo esse complexo cultural humano já é de alguma maneira feito por bactérias. O mundo da informação, transmitida pela cadeia evolutiva darwiniana, é praticamente a representação do mundo natural nas “culturas” das bactérias.

A cultura é o espelho opaco do biológico. Fazemos tudo da mesma maneira e damos nomes, isso faz parecer que criamos, mas estamos apenas dando vazão ao que já sabemos inconscientemente. A confiança não seria diferente. Temos no instinto mais primário a percepção de confiar. Sabemos muito mais sobre os outros ao ver e “ouvir” seu corpo do que sua fala. Logo fica claro que a confiança veio antes da fala.

Os animais “inferiores” sentem a confiança como nós a sentimos; é fácil ver isso nos mamíferos. Os gatos, exemplo clássico, sabem perfeitamente em quem confiar. Assim acontece com todas as espécies: até uma ameba tem lá seu sentido de confiar. Pela química que a rodeia ela sabe se aquele ambiente vai ser bom para ela ou não e pode, depois de disparar o que chamamos de confiança primária, atingir a reação “desejada”.

Basta um pouco de foco para vermos que estamos rodando em círculo e que a cada rodada há um salto de evolução. Voltamos ao mesmo ponto, mas com muito mais informação e confiança em avançar. A evolução usou ao extremo a criatividade coletiva para chegar à mente humana. Foram bilhões de anos se juntando e cocriando quimicamente novas inteligências, agregando informações, agregando partes, crescendo juntas, diferenciando funções em uma evolução de compartilhamento de tarefas para produzir mais informação. A evolução é regida pela confiança.

O novo mundo que se apresenta, com tanta tecnologia, não foge a essa regra, pelo contrário, ele a usa com toda intensidade. Estamos prestes a completar um novo ciclo e voltamos à criatividade coletiva como marca do desenvolvimento. Os gênios isolados darão lugar ao coletivo. A internet e sua tecnologia avançada, com algoritmos e tantos recursos e possibilidades, está trazendo o humano para a criação compartilhada.

Olhe para todas as profissões ou negócios e veja como as inter-relações estão aumentando. A máxima de que ninguém faz nada sozinho está ficando cada vez mais evidente. Até bem pouco tempo, um sapateiro fazia o sapato com seu conhecimento e sua arte, o alfaiate o mesmo; assim eram as profissões e a marca criativa se fazia ver quase que isolada em cada ser humano. Hoje, um carro, um computador ou qualquer outro produto, e mesmo as profissões, se autoalimentam.

Trabalhamos com a confiança de que o computador, a rede, a informação, tudo vai funcionar independente do nosso esforço. Assim é o corpo biológico, assim construímos a sociedade e assim continuaremos evoluindo, coletivamente.

O ato criativo isolado é muito mais uma função do ego, fundamentado no desejo de ser visto, que em qualquer outra natureza evolutiva. E confiança não se gera com o desejo de ser visto e, sim, com a participação criativa que cada um de nós pode conter. E para gerar confiança precisamos confiar, como um elétron muda de camada dentro do átomo sem “pensar” se é bom ou ruim, como uma bactéria recebe os genes de outra bactéria na “certeza” que vai funcionar, apenas porque é sua função fazê-lo naquele momento e ele faz parte daquele processo.

A origem da vida, ainda tão misteriosa, a cada descoberta científica se mostra mais envolta em confiança e associação, que qualquer outro princípio. Vejo esse “mistério” todos os dias no consultório. Quando uma pessoa começa a ver que sua história é o conteúdo mais rico que possui. A chamada autoconfiança começa a aparecer e como em um passe de mágica o sentido da vida aflora como uma planta saindo da terra com toda a “certeza” de que já vem pronta para dar o fruto que perpetua a espécie.

A tão famosa espiral evolutiva que os holísticos amam se apresenta como uma verdade da vida: tudo retorna ao mesmo ponto depois de um ciclo evolutivo, apenas com mais informação. Esse é o que chamo de evolução constante da consciência.

As bactérias transmitem genes umas às outras fora do padrão normal de evolução, por contato e osmose. Não precisam se acasalar e esperar o imponderável; o “acaso” fazer sua tarefa é um processo de comunicação quase subjetiva. Importante notar que só o fazem se tiver alguma “informação” genética necessária à espécie. Da mesma forma que fazemos quando adquirimos um conhecimento vital e queremos passar aos nossos filhos, como ocorre na alfabetização. Não é um processo genético, mas é uma mudança de comportamento, um aumento da capacidade criativa e, portanto, sobrevivência.

Assim como as bactérias, transmitimos informação, provocamos evolução sem a necessidade do “acaso” genético. Informação e energia juntas sustentam essa operação evolutiva. E o que mais temos no universo são essas duas peças-chave da vida: energia e informação.

Não por acaso o que propulsiona a vida moderna é energia e informação associadas, que estão presentes em nossas máquinas maravilhosas. Mais uma vez, copiamos o que temos dentro, o que demonstra o quanto podemos ainda aprender, nos descobrindo.

A confiança que temos no conhecimento do início da vida cresce à medida que nos conhecemos, psiquicamente e biologicamente. Somos resultado de um mundo evolutivo e contemos (dentro de nós) tudo o que aconteceu até agora na vida na Terra, ou quem sabe até antes dela.

A evolução do autoconhecimento psíquico é uma ferramenta poderosa para evoluirmos a consciência dessa sabedoria e minimizar nossa eterna angústia do que somos, de onde viemos e para onde vamos, principalmente quando entendemos que o ego é uma capa protetora a ser ultrapassada.

Claro que essa capa inicialmente é necessária, mas, no mundo individualista que construímos, ela tem se mostrado espessa demais para permitir essa viagem ao fundo de nossos conhecimentos ancestrais, que nos coloca na mesma posição de qualquer ser vivo, no caminho da expansão da consciência e de uma imprescindível e necessária integração com o Cosmos, nossa casa. Deixemos de confiar mais nas máquinas e passemos a confiar mais em nossa essência.

 

Osório Santos é psicanalista há mais de vinte anos, livre estudioso da teoria junguiana e da psicologia evolutiva e autor do livro Acaso premeditado: ensaio sobre a consciência e o mistério da vida.

Photo by Aditya Wardhana on Unsplash

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