Em qualquer debate sobre performance, cultura ou comunidade, há uma palavra poderosa que muitos hesitam em usar: amor. Imediatamente, ela é vista como abstrata, sentimental demais, ou simplesmente fora de lugar em discussões sérias sobre negócios e resultados. Mas e se o problema não for a palavra em si, mas a nossa incapacidade de traduzi-la para a linguagem do sistema que queremos impactar?
O segredo para defender essa força motriz não é insistir no substantivo, mas demonstrar seus verbos e resultados. A estratégia é simples e poderosa: troque “amor” por suas manifestações observáveis e inquestionáveis. Em vez de dizer “precisamos de mais amor no trabalho”, experimente dizer: “Precisamos construir uma cultura de investimento mútuo, cuidado genuíno com o resultado e compromisso real com a equipe”. Essas ações — investir, cuidar e comprometer-se — são a tradução pragmática do amor para o ambiente profissional, e ninguém pode chamar isso de piegas.
Essa visão não é apenas filosófica; ela é sustentada por evidências de múltiplos campos. Do ponto de vista da neurociência, a necessidade de pertencimento é um imperativo biológico forjado pela evolução para garantir nossa sobrevivência. Quando nos sentimos conectados e seguros, nosso cérebro libera oxitocina, o hormônio do “vínculo social”, que reduz o estresse e otimiza a cooperação. Uma equipe que opera com base na segurança psicológica não está inserida apenas em um lugar “agradável”, ela é neurologicamente otimizada para a alta performance. Essa mesma dinâmica é o que as empresas buscam desesperadamente, mesmo que a chamem de “alto engajamento”. Funcionários engajados inovam, resolvem problemas e agem como donos do negócio.
Não por acaso, a professora de Harvard, Amy Edmondson, provou que a segurança psicológica — a crença de que você não será punido por errar — é o principal fator de sucesso em equipes de ponta. Essa lógica se estende para além dos muros das empresas, moldando a própria estrutura de nossas comunidades.
A vitalidade de um bairro não se mede apenas por indicadores econômicos, mas por seu “capital social”: a rede de confiança e reciprocidade que torna uma comunidade resiliente a crises. Quando os moradores “amam” seu bairro, eles cuidam dos espaços públicos e apoiam o comércio local, criando os “olhos na rua” que a urbanista Jane Jacobs defendia como uma vigilância baseada no cuidado, não na desconfiança.
Para aplicar essa visão de forma eficaz, a abordagem na comunicação é fundamental. Em vez de diagnosticar um problema com a palavra “amor”, é mais poderoso apontar suas consequências diretas, como a alta rotatividade ou a baixa colaboração, e então perguntar como podemos fazer as pessoas sentirem mais amor no que fazem. É útil usar metáforas robustas, como “cola social” para descrever a conexão que une as equipes, ou a “gravidade” que mantém os talentos em órbita da empresa.
Acima de tudo, é preciso mostrar, não apenas contar, destacando exemplos concretos e irrefutáveis: o gerente que defendeu sua equipe, o colega que ficou até mais tarde para ajudar, o morador que organiza a limpeza da praça. Ações falam mais alto que qualquer substantivo.
Portanto, quando falamos sobre a importância de “amar” o que se faz e onde se está, não estamos falando de um sentimento passivo. Estamos falando da força mais poderosa para a criação de valor sustentável, seja ele econômico, social ou pessoal. É a energia que transforma um grupo de indivíduos em uma equipe de alta performance, no fim das contas, é a coisa mais pragmática que existe.
Osório Santos é psicanalista há mais de vinte anos, livre estudioso da teoria junguiana e da psicologia evolutiva. Seu livro mais recente é Acaso premeditado: ensaio sobre a consciência e o mistério da vida.
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