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Antes do prontuário frio, do crachá corporativo e da palavra que rotula, havia o homem. Antes da sombra que o mundo chamou de loucura — ou que o mercado, tantas vezes, chama de insubordinação —, existia um oceano inteiro, submerso, esperando por um sopro de escuta.

Talvez, afinal, aquilo que chamamos de desvio — como um surto em uma ala hospitalar ou a aparente rebeldia nos corredores de uma empresa — não seja a ausência de razão, mas uma pulsão de vida reprimida. Uma força vital tão vasta, tão intensa e represada que, sem espaço para fluir em um mundo de margens tão estreitas, transborda em tempestade. É a vida querendo acontecer, gritando para existir, mas empurrada para o silêncio, para o isolamento ou para o enquadramento burocrático.

Por muito tempo, a psiquiatria tradicional olhou para a mente em sobressalto e viu apenas ruínas. Quis calar o grito com o choque, conter a força desse rio caudaloso entre paredes de cal, lobotomias e esquecimento. Mas, em meados do século XX, no subúrbio do Rio de Janeiro, uma médica revolucionária chamada Nise da Silveira (cuja doçura e firmeza histórica inspiram esta reflexão) ousou trilhar o caminho inverso.

Nise recusou-se a ser carcereira. Ela, que sabia que a alma não se cura com fúria, não trouxe chaves ou correntes para os seus pacientes; trouxe terra, argila, telas e tintas. Em vez de calar a dor, ela estendeu a mão e entregou um pincel, abrindo as comportas para que aquela pulsão vital reprimida pudesse, finalmente, correr livre e se transformar em imagens de extraordinária beleza e poder. Ela provou ao mundo que o afeto não era uma fraqueza científica, mas o método de cura mais sofisticado que existia.

De forma profundamente semelhante, a gestão tradicional nas organizações ainda olha para o colaborador inquieto, para o dissidente ou para o “difícil”, e enxerga apenas uma ameaça à ordem. Tenta-se conter essa intensidade com o microgerenciamento, com regras sufocantes e com o silenciamento de suas ideias.

Mas o líder que se inspira no legado de Nise da Silveira não atua como o vigia de processos, mas como um facilitador de caminhos. Ele compreende que a energia que contesta é a mesma que cria. Ele não tenta enquadrar o colaborador; ele fornece as “telas e os pincéis” — que no ambiente corporativo se traduzem em autonomia, novos desafios e espaço para criar —, permitindo que com aquela intensidade represada se faça inovação, e não destruição.

E onde o olhar apressado via apenas o caos ou a resistência, a tela do trabalho revela arquiteturas sagradas. Onde antes havia o conflito improdutivo, nascem soluções disruptivas, projetos audaciosos e visões que ninguém mais conseguia enxergar.

Nesse espaço, o “afeto como método” de Nise se traduz no que a ciência dos negócios hoje chama, com reverência, de segurança psicológica: a certeza de que se pode errar, propor e ser autêntico sem o medo de ser aniquilado ou julgado pela estrutura. Não se trata de uma concessão ingênua, mas de um imperativo de alta performance. A inovação não nasce sob o peso do medo, mas sob a moldura do acolhimento.

Aqueles que a estrutura corporativa corria o risco de desterrar e rotular como “desajustados” voltam a vestir-se de si mesmos. Deixam de ser um “recurso” a ser gerenciado para tornarem-se, novamente, sujeitos de sua própria história e coautores do destino da organização.

Porque por trás de qualquer diagnóstico clínico ou de qualquer meta trimestral, sob o peso de qualquer sigla que tente limitar o infinito de alguém, pulsa uma riqueza interior que não cabe em celas ou em planilhas rígidas. Há um universo que não quer ser moldado para a submissão, mas compreendido em sua potência. Uma equipe não é uma máquina composta por engrenagens frias e substituíveis; é um ecossistema vivo de conexões humanas, onde o desempenho final é determinado pela qualidade do tecido invisível que une as pessoas.

Compreendemos, por fim, que a tela não se pinta no vácuo, e que o sucesso de uma organização não se consolida no isolamento. O milagre não está apenas na tinta que toca o papel, ou na meta que se atinge no final do mês, mas no olhar de quem acolhe e potencializa o outro ao longo do caminho. Pois se a expressão dá forma à alma, ela só se realiza quando encontra o outro. No limite desse abraço entre a liderança consciente e a sensibilidade humana, descobrimos que a arte espelha, em cada traço, em cada entrega e em cada cor, a mais bela e delicada de todas as criações: a arte humana das relações.

Texto inspirado em uma publicação do UOL, sobre a história dessa brasileira que transcende o conhecimento científico de sua época.

Osório Santos é psicanalista há mais de vinte anos, livre estudioso da teoria junguiana e da psicologia evolutiva. Seu livro mais recente é Acaso premeditado: ensaio sobre a consciência e o mistério da vida.

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